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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Ora et Labora


Ora et Labora
Solve et Coagula
AD ROSAM PER CRUCEM.'.AD CRUCEM PER ROSAM

por um Probacionista

I.Simbolismo do Corpo e da Cruz

Segundo o axioma hermético, “ como é acima, assim é abaixo”. Esta analogia entre o macrocosmos e o microcosmos é uma das chaves através da qual é possível desvendar os segredos da Bíblia e das demais Escrituras Sagradas de todos os povos. Todavia devemos advertir que estas condições são relativas e as características comparativamente estáticas do plano material são apenas um pálido reflexo da condições dinâmicas dos planos suprafísicos ou internos.
As relações entre o corpo humano e o Cosmos estão presentes nos Mistérios Sagrados de todos os povos. Tais relações foram elaboradas pelos antigos sábios na forma de grandes dramas que reproduziam as funções do corpo humano, os atributos mentais, as qualidades anímicas e a marcha do Sol no firmamento.
Todas as antigas religiões estavam fundamentadas no culto à natureza, o qual em forma derivada, sobreviveu até os nossos dias como um culto fálico.
A adoração das partes e funções do corpo humano começou no último período da chamada época Lemúrica. Nesta época o homem era representado pela letra T (Tau) ; pois a maior parte da humanidade só possuía os corpos denso, etérico e de desejos. Somente os precursores, que foram iniciados pelos Senhores de Mercúrio, teriam desenvolvido a mente nesta época, vindo a ser os Irmãos Maiores da Humanidade.
Sob o ponto de vista meramente histórico, sabemos que Ordens místicas e religiosas floresceram entre todos os povos antigos, e muitas destas tradições e ensinamentos foram revividos na Europa durante a chamada Idade Média.
Embora os estudos históricos, rigorosamente falando, não registram o uso do nome Rosacruz antes do Século XVII, época em que são publicados os primeiros manifestos, sob o ponto de vista místico a emergência do rosacrucianismo se perde na noite dos tempos.
As Escolas de Mistérios são constituídas por doze Irmãos em torno de um décimo-terceiro, chamado o Libertador. Este é o protótipo dos Doze Discípulos em torno de Cristo. O Irmão décimo-terceiro representa a Consciência Crística ou Cristão Rosa Cruz.
O chamado culto ao Sol remonta à Época Atlante, e também incorporava inúmeros símbolos e rituais do culto da Época anterior. É interessante notar que esse culto vem sendo transposto, de uma forma ou de outra, às principais religiões.
Os antigos povos costumavam construir seus templos na forma do corpo humano, ocupando o altar principal a mesma posição relativa ao cérebro, localizado no extremo ocidental do templo, enquanto o portal estava voltado para o Oriente, onde nasce o Sol, o doador da luz.
O Templo de Karnak, no Egito; o Tabernáculo no Deserto, dos judeus; as estruturas religiosas dos sacerdotes havaianos e também a Catedral de São Pedro, em Roma estão dispostas em forma de cruz.
Os sacerdotes da antiguidade conheciam as relações entre o macrocosmos e o microcosmos e sabiam que conhecer o homem era conhecer o Universo. Cada estrela no firmamento, cada elemento na Terra e cada função na natureza, estava representada no corpo humano.
Tal relação entre a natureza e a anatomia oculta do homem (oculta para as massas), constituía os ensinamentos secretos do Antigo Sacerdócio, que controlava a população.
O simbolismo anatômico desenvolvido para perpetuar tal conhecimento chegou à cristandade moderna, que todavia perdeu a sua chave.
A cruz cristã provém do Egito e da Índia; a tríplice mitra deriva do culto de Mitra; o cajado provém dos mistérios herméticos egípcios e eleusianos gregos; a imaculada concepção, da Índia; a transfiguração , da Pérsia; e a trindade dos brahmanes. A Virgem Maria, como a mãe de Deus, está presente em cerca de doze doutrinas diferentes. Mais de vinte salvadores do mundo foram crucificados. O campanário da Igreja descende das pirâmides e dos obeliscos egípcios, e o próprio diabo dos cristãos lembra-nos o Tifón dos egípcios, com algumas alterações.
Manly P. Hall, que dedicou toda a sua vida ao estudo de Filosofia e das Religiões Comparadas, chegou a afirmar: "Quanto mais nos aprofundamos nos ensinamentos secretos de todas as épocas, percebemos que, realmente , não há nada novo abaixo do Sol."
Esta chave secreta, que permite decifrar os mistérios dos símbolos antigos e as relações entre o macro e o microcosmos é o cerne dos ensinamentos esotéricos, sendo o Rosacrucianismo o herdeiro desta tradição milenar no Mundo Ocidental.

II.O Raio Cósmico de Cristo
Segundo a Ciência Oculta, toda Escritura Sagrada está selada com sete selos ; ou seja, seu pleno significado requer sete interpretações completas.
É importante compreender que uma Escritura não é necessariamente redutível à História. Seu significado literal é apenas a ponta do iceberg. Se nos detivermos neste aspecto avançaremos muito pouco na compreensão das Escrituras. Um notável exemplo de "Escritura Leiga" são os dramas atribuídos à Shakespeare, onde o autor reúne caracteres de indivíduos de diferentes séculos. O mesmo ocorre com aBíblia e as Escrituras Sagradas de todos os povos. Para o pensador profundo a História é o que menos importa na interpretação de uma Escritura.
Sob o ponto de vista astronômico, Cristo representa o Sol, e seus discípulos os doze signos do zodíaco. As cenas de seu ministério são descritas entre as constelações. O relato de seu nascimento, crescimento, plenitude e morte pelos homens se reporta a precessão dos equinócios.
Sob o ponto de vista alquímico, a tempestade no mar e a fúria dos elementos, nos revelam a vida do Mestre sob um novo ângulo.
A descrição da vida de Cristo, segundo os Evangelhos, coincide com as vidas de cerca de doze salvadores da Humanidade, porque eles também personificam mitos astronômicos e fisiológicos.
A emergência de tais mitos se perde na noite dos tempos, procede da mais remota antiguidade, quando os nossos ancestrais utilizavam o corpo humano como a unidade simbólica, e os deuses e demônios eram personificados nos órgãos e funções corporais. Alguns escritores cabalistas representavam a Terra Santa delineada sobre a base do corpo humano, e exibindo as diversas cidades como centros de consciência do homem.
Tal relação entre o Cosmos e o corpo humano constitui o fundamento dos Antigos Mistérios, preservados ao longo dos tempos pela tradição Rosacruz.
A Ordem Rosacruz é tão antiga quanto o homem em sua aquisição de inteligência, em sua manifestação como ser pensante. Ordem Rosacruz deriva das Escolas de Mistérios da Antiga Lemúria, uma Idade de Ouro, quando os "deuses caminhavam sobre a Terra". Neste período os precursores da Humanidade, que haviam desenvolvido o elo mental, foram iniciados pelos Senhores de Mercúrio, tornando-se os Irmãos Maiores da Humanidade e substituiram tal Hierarquia na condução dos Mistérios Menores nos períodos posteriores.
Desde que recebemos o elo mental manifestou-se a Filosofia da profunda Ordem Rosacruz para que os que se capacitavam a penetrar nos Templos. É fácil compreender-se que sendo tão poucos os que podiam receber tão altos conhecimentos estes se mantivessem reservados para poderem ser lançados mais tarde, de acordo com os processos evolutivos da Humanidade.
De longínquos tempos galgamos degraus, desde o aperfeiçoamento da cadeia de veículos, e os que guardam o conhecimento da evolução humana, do processo que se modifica dia-a-dia, vieram dar à Humanidade os passos de conhecimentos mais altos e amplos para que cada um pudesse reger sua própria vida. Se bem analisarmos veremos que a onda de vida humana que atualmente evolui na face da Terra ainda divisa os primórdios da regência de sua vida, dando os primeiros passos para chegar a tal conquista.
A Ordem Rosacruz, guardiã dos desígnios dos destinos humanos e do mundo, conhecedora dos passos que seguimos tem trabalhado ao longo de várias Eras pela expansão de consciência e desenvolvimento anímico da Humanidade.
No passado, a Ordem preparou o trabalho que se desenvolveria nas eras vindouras treinando aqueles que haviam compreendido que a Terra é um grande laboratório de desenvolvimento anímico e não um fim em si mesmo. Tais seres prepararam o advento do Cristo Cósmico.
A Eterna e Invisível Ordem Rosacruz é uma estrutura espiritual, e seu campo de possibilidades transcende a compreensão a compreensão do homem comum. Todavia ao se manifestar no plano físico sua esfera de atuação é demarcada segundo determinados objetivos. A missão da Ordem não é perpetuar as formas de suas manifestações temporais, mas conduzir à Catedral da Alma ou Santuário Interno, que transcende as suas manifestações temporais.
Coube a Ordem Rosacruz a preparação do advento do Cristo Cósmico. No Egito surgiu Akhenaton, o Arauto do Cristo Cósmico, que veio restaurar a cadeia de transmissão dos Ensinamentos Secretos de Todas as Eras.
Entre os Essênios o Mestre Jesus preparou os veículos que serviriam ao Cristo Cósmico, a Encarnação do Verbo, o Supremo Mestre dos Mistérios Maiores ou O Grande Libertador.
Cristo salvou o mundo e proporcionou-nos os meios com uma cadeia de doze veículos, desde o corpo humano ao divino para que a Terra pudesse resistir ao impulsos do materialismo. Nosso mundo foi penetrado por Cristo Jesus. O Raio Cósmico de Cristo penetrou a consciência do homem-santo Jesus. Assim o divino amalgamou o puro e formou uma alquimia pela qual o mundo entrou no equilíbrio necessário.
Durante o ministério de Cristo, Hiram Abiff, Iniciado dos Mistérios Ant igos, reaparece como um dos caracteres bíblicos, recebendo a Suprema Iniciação Cósmica atingindo a consciência crística e tornando-se C.R.C. Tal iniciação está alegoricamenterepresentada pela Ressurreição de Lázaro.
Posteriormente reaparece no Século XIV inaugurando um novo ciclo na História Oculta da Humanidade. Nesta época reúne doze Adeptos de nossa própria onda de vida, capazes de substituírem outras Hierarquias no trabalho das Escolas de Mistérios inaugurado pelos Senhores de Mercúrio. Por isso é considerado o Fundador da Ordem Rosacruz , embora o seu protótipo já existisse desde os tempos pré-cristãos.
Sua manifestação como C.R.C. é narrada na alegórica história do Pai C.R.C., descrita na Fama Fraternitatis, o primeiro manifesto Rosacruz, atribuído a Johan Valentin Andréas e publicado em Kassel, Alemanha , em 1614.
Convém mais uma vez sinalizar que tal obra assim como os dramas atribuídos a William Shakespeare e as Escrituras Sagradas não pertencem propriamente ao registro da História, mas sim ao registro da Escritura. Isto não significa que os personagens descritos nas Escrituras ou que o Fundador de Nossa Venerável Ordem não tenham existido ou se manifestado em forma física.

III.O Nome da Rosacruz
O nome Rosacruz tem sido também objeto de controvérsias.
Alguns advogam que a palavra Rosacruz provém do símbolo da rosa e da cruz enquanto outros sustentam que tal simbolismo seria apenas um símbolo velado para um significado mais profundo da Ordem. (a imagem à direita é o Símbolo da Alquimia, matéria Rosacruz que será aqui focalizada, mais adiante).
Godfrey Higgins acreditava que a palavra Rosacruz não derivava da flor, mas sim da palavra Ros, que significa orvalho. Também é interessante notar que a palavra Ras significa sabedoria , enquanto a palavra Rus é traduzida como dissimulação. Não há dúvida que todos estes significados contribuíram para o simbolismo Rosacruz. A.E. Waite concorda com Goddfrey Higgins que o processo de formação da Pedra Filosofal com a ajuda do orvalho está relacionado ao significado da palavra Rosacruz. Manly P. Hall acrescenta que “é possível que o orvalho se refira a uma misteriosa substancia dentro do cérebro humano, intimamente relacionada com a descrição dada pelos alquimistas do orvalho que, caindo do céu, redimia a terra. A cruz é o símbolo do corpo humano, e os dois símbolos juntos – a rosa e a cruz – significam que a alma do homem é crucificada sobre o corpo, onde é presa por três pregos.” Isso tem significado alquímico secreto, pois a Ordem Rosacruz tem função alquímica de fundamental importância para a evolução dos seres pensamentes animados, individualmente e nesse processo como um todo. Falemos, portanto, algo sobre a Alquimia, essa anqtiquissima ciência mística.
O significado etimológico do termo árabe al-kimiya, provém do egípcio kême, que significa terra negra, e muitos historiadores tentaram descobrir neste termo o significado da tão procurada matéria-prima dos alquimistas. Da mesma forma tentaram encontrar analogias com a derivação da raiz grega chymia, que significa fundir ou derreter. A Alquimia também foi considerada como una espécie de proto-ciência anterior à Química e à Física.
A Alquimia transcende o somatório de todas as interpretações que sobre ela se dão. Seu esplendor remonta a época Atlante , passando dali antes do dilúvio mitológico, a formar parte do conhecimento secreto de monges, eruditos e escribas de diversas partes do planeta. As primeiras referencias escritas devidamente documentadas nos conduzem a China. Segundo Mircea Eliade, “a Alquimia chinesa originalmente foi de caráter más espiritual que operativo. Os místicos chineses a través de sua prática, buscavam alcançar a iluminação e a imortalidade. Neste período o ouro não tinha realmente um valor econômico, na China e a alquimia estava voltada à sacralidade”.
Do Egito procede a Doutrina Hermética sintetizada na Tábua de Esmeralda, cujas linhas se converteram em axioma e fundamento de toda a herança esotérica do Oriente e do Ocidente .
É verdade, sem mentira, certo e muito verdadeiro.
O que está abaixo é como o que está acima, e o que está acima, é como o que está abaixo, para realizar o milagre de uma só coisa.
E como todas as coisas vieram e vem do Uno, por mediação do Uno, assim todas as coisas nasceram desta coisa única por adaptação...
Este texto e outros tratados que circularam sob o título de "Corpus Hermeticum" corporificaram entre os séculos II a.C. e IV d.C., uma série de idéias e ensinamentos com um princípio comum, que identificava o Bem com o Conhecimento, convertendo em matéria religiosa a busca do supremo e verdadeiro Saber que desvela os segredos do Universo.
O "Mutus Liber", célebre texto medieval, proclama o modus operandi do alquimista : "ora, lê, relê, trabalha e encontrarás".
O monge beneditino Basilio Valentín, nos diz em seu tratado "As Doze Chaves da Filosofia" que "...a pedra dos antigos, proveniente do céu, para a saúde e consolo dos homens neste vale de lágrimas, é como o tesouro terrestre mais precioso e , a meu parecer, também o mais legítimo.".
 
A Fenix e a Pedra Filosofal, JAKnapp
O primeiro trabalho do alquimista rosacruciano consiste em encontrar a Matéria Prima, formada de uma ou mais matérias, as quais como todo ser vivo, estão compostas por três princípios denominados simbolicamente Enxofre, Mercúrio e Sal. O trabalho físico do alquimista se fundamenta no Solve et Coagula, ou seja, Separe e Una, porque através da Grande Obra, o hábil operador separa suas matérias em seus princípios essenciais para purificá-las e uní-las novamente dentro de seu ovo filosófico (vasos químicos) em um ciclo de continua purificação e aperfeiçoamento com a ajuda de seu Atanor (Forno Alquímico). Através deste processo de aperfeiçoamento passa por diferentes fases identificadas simbolicamente com os seguintes nomes : Trabalhos de Hércules, Mercúrio, Saturno, Júpiter, Lua, Vênus, Marte e Sol . Durante esta grande cocção e a medida que a matéria se transforma e purifica, se cumprem duas etapas particularmente importantes, aquela do Diamante (Pedra Branca) e finalmente a do Rubi (Pedra Roja) da qual sairá a Pedra Filosofal.

Alquimista Rosacruz, por JAKnnap
O alquimista rosacruciano é um hábil assistente da natureza pela Graça de Deus. Seu Laboratório, o lugar onde labora e ora, é um lugar de suma importância e de caráter eminentemente místico. Através dos processos de dissolução, putrefação, destilação, sublimação, conjunção , fixação e lapidificação, reproduzem os ciclos e procedimentos da Natureza.
O Laboratório tem três dimensões: O Universo, propriamente dito, o seu Corpo e o seu Sanctum, onde se recolhe e realiza seus experimentos expandindo a sua consciência.
A Pedra Filosofal é elaborada no corpo físico do homem, o laboratório do Espírito que contém todos os elementos necessários para produzir este elixir da vida. É o próprio alquimista que se torna a Pedra Filosofal. O sal, o enxofre e o mercúrio, emblematicamente contidos nos três segmentos da coluna vertebral que controla os nervos simpáticos, motor e sensorial, são governados pelo Fogo Espiritual Espinhal de Netuno, constituindo os elementos essenciais no processo alquímico.
 
Seguindo a antigas fórmulas herméticas os alquimistas da Idade Média buscavam atingir as três metas desta magna ciência que eram: o elixir da vida, a pedra filosofal e a transmutação dos metais. O elixir da vida era uma misteriosa essência capaz de curar todas as enfermidades e conferir a imortalidade. A pedra filosofal era o misterioso rubi-diamante ou o sangue-diamante, a pedra do homem sábio, que conferiria conhecimento e regência sobre todas as forças da natureza. A transmutação dos metais era o segredo da regeneração , a transmutação de todos os valores corruptos da vida.
É claro, que a alquimia era uma química divina, o segredo do aperfeiçoamento da vida através das disciplinas de sabedoria.
A pedra filosofal simboliza a vida interna purificada do indivíduo, sua própria alma diamantina. Aquele que aperfeiçoa sua própria alma adquire a Pedra Filosofal. A luminosa aura anímica do ser humano iluminado é o diamante simbólico. Aquele que o adquire alcança a sabedoria divina.
O laboratório é a vida , a retorta alquímica é o corpo do próprio alquimista, e o misterioso processo que acontece neste forno representa a transmutação dos elementos básicos da vida, mediante a vivencia da divina arte.
O forno dos alquimistas era o corpo humano. O fogo que ardia nele, estava na base da espinha dorsal, pela qual ascendiam os "vapores" para reunir-se lo go e serem destilados no cérebro. Este foi um sistema secreto levado a Europa do longínquo Oriente, onde se cultivou durante séculos a mais elevada forma de religião.
Manly P. Hall chama estas verdades ocultas de princípios da espiritualidade operativa para distinguí-las da moderna religião que está formada inteiramente de teorias especulativas.
Reportando-se a suas próprias palavras, “As pessoas não imaginam que a religião é fisiológica, nem acreditam que sua salvação depende inteiramente do uso científico dos elementos e forças internas de seus próprios corpos ; porém a despeito de tudo isso, pode ser dito o contrário; tal é o caso.”
“Segundo os Evangelhos, Pilatos colocou um letreiro na cruz de Cristo com as palavras: "Iesus Nazarenus Rex Judaeorum" e isto é traduzido normalmente como "Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus". Mas, a iniciais INRI colocadas sobre a cruz representam os nomes em hebraico de quatro elementos: Iam, água; Nour, fogo; Ruach, espírito ou ar vital; e Labe Shah, terra. Esta é a chave oculta do mistério da crucificação, pois ela simboliza, em primeiro lugar, o sal, enxofre, mercúrio e azoto, que foram utilizados pelos antigos alquimistas para fazer a Pedra Filosofal, o solvente universal, o elixir vitae. Os dois "is" (Iam e labeshah), representam a água salina lunar: a - em um estado fluídico que contém sal em solução; b - o extrato coagulado desta água: o "sal da terra"; em outras palavras, os sutis veículos fluídicos do homem e seu corpo denso. N (nour) representa o fogo em hebraico, e os elementos combustíveis, entre os principais o enxofre e o fósforo, são muito necessários à oxidação, sem os quais o sangue quente seria impossível. O Ego, sem esta condição de calor no sangue não poderia funcionar no corpo, nem conseguiria uma forma de expressão material. R (Ruach) é o equivalente a espírito em hebraico, isto é, o Azoth dos alquimistas, que funciona na mente mercurial. Assim, as quatro letras INRI, colocadas sobre a cruz de Cristo, de acordo com o relato dos
Os Evangelhos representam o homem composto, ó Pensador, no momento de seu desenvolvimento espiritual, quando começa a se libertar da cruz de seu veículo denso. Ampliando mais a elucidação deste ponto, notamos que INRI é o símbolo do candidato crucificado pelas razões seguintes: Iam, a palavra hebraica para água, o fluido ou elemento lunar, que constitua a maior parte do corpo humano (cerca de 87% ). Esta palavra é também o símbolo dos mais sutis veículos fluídicos do desejo e da emoção. Nour, a palavra hebraica para fogo, é a representação simbólica do calor produtor do sangue vermelho, que está carregado de ferro, fogo e energia do marcial Marte, e esse sangue é visto pelo ocultista como um gás circulando pelas veias e artérias do corpo humano infundindo-lhe energia e ambição, sem as quais não haveria progresso espiritual nem material. Também representa o enxofre e fósforo necessários para a manifestação material do pensamento, como já foi anteriormente mencionado. Ruach, a palavra hebraica para indicar o es pírito ou ar vital, é um símbolo excelente do Ego envolvido pela :ente mercurial, que torna o ser humano homem, capacitando-o a controlar e dirigir seus veículos corporais e suas atividades de uma forma racional. Iabeshah, a palavra hebraica para terra, representando a parte sólida, a carne do homem, e forma o corpo terrestre cruciforme, cristalizado dentro dos veículos mais sutis ao nascer e separado deles ao morrer no curso normal das coisas, ou em um acontecimento extraordinário pelo qual aprendemos a morrer misticamente e ascender às gloriosas esferas superiores por uns tempos. Este estágio do desenvolvimento espiritual do Cristão Místico requer uma reversão da força criadora de seu curso normal, donde normalmente desperdiça energia para satisfazer suas paixões, uma corrente dirigida para baixo através do tríplice cordão espinhal, cujos três segmentos são regidos, respectivamente, pela Lua, Marte e Mercúrio, e donde os raios de Netuno acendem o Fogo Regenerador Espiritual da Espinha Dorsal. Esta consciente elevação coloca em vibração o corpo pituitário e a glândula pineal, abrindo a visão espiritual. Isto golpeia o sinus frontal, o que dá início aos efeitos da coroa de espinhos; o latejar da dor à medida que a ligação com o corpo físico é consumida pelo sagrado Fogo Espiritual, que desperta este centro de sua milenar letargia, começando a vibrar em direção a outros centros na estrela estigmatizada de cinco pontas. Elas também são vitalizadas e todos os veículos iluminam-se com o "Dourado Manto Nupcial". Então, num arranco final, o grande vórtice do corpo de desejos localizado no fígado fica livre, e a energia marciana contida nesse veículo impulsiona para cima o veículo sideral (assim chamado devido aos estigmas da cabeça, mãos e pés que estão situados na mesma posição dos da estrela de cinco pontas), o qual ascende através da caveira (Gólgota) enquanto o Cristão crucificado lança o grito triunfante: "Consummatum est" (está consumado), e começa a elevar-se às sublimes esferas siderais ao encontro de Jesus, cuja vida ele imitou com pleno êxito e de quem, desde então, é companheiro inseparável. Jesus é seu Mestre e seu guia para o Reino de Cristo, onde todos estaremos unidos para aprender e praticar a Religião do Pai, onde a Unidade fundamental de cada um com todos será vivenciada e reconhecida.” -Max Heindel ( in Iniciação Antiga e Moderna)
O Caminho Rosacruz é um caminho de Alquimia Espiritual, onde se transmuta a natureza inferior em superior, onde se tece a alma. O conhecimento que é compartilhado pela Escola Rosacruz não é um fim em si mesmo, mas um meio do discípulo qualificar-se a servir amorosa e desinteressadamente à Obra da Criação.

AD ROSAM PER CRUCEM.'.AD CRUCEM PER ROSAM


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

UM CÂNTICO PARA SÃO LEIBOWITZ

 Se não fosse aquele peregrino que de repente lhe apareceumesmo a meio do deserto, onde prosseguia o jejum ritual daQuaresma, Frei Francis Gérard de L'Utah com certeza nunca teriadescoberto o documento sagrado. Era aliás a primeira vez quetinha oportunidade de ver um peregrino com uma tanga a envolvê-lo,de acordo com a melhor tradição, mas um simples olharbastou para convencer o jovem monge de que a personagemera autêntica. O peregrino era um velho desengonçado quecoxeava apoiando-se ao clássico bordão; a barba selvagem estavamanchada de amarelo à volta do queixo e transportava umpequeno odre ao ombro. Com a cabeça coberta por um amplochapéu e sandálias nos pés, tinha os rins apertados por umpedaço de pano de sacos, bastante sujo e esfarrapado. Era oúnico vestuário que usava e assobiava (falso) enquanto descia apista pedregosa do norte. Parecia dirigir-se para a abadia dos fradesde Leibowitz, situada a uma dezena de quilómetros na direcçãodo sul. Assim que avistou o jovem monge no seu deserto de pedras,o peregrino cessou de assobiar e começou a examiná-lo comcuriosidade. Quanto a Frei Francis, absteve-se de quebrar a leido silêncio imposta pela Ordem para os dias de jejum; afastandorapidamente o olhar, continuou portanto a trabalhar, trabalhoque consistia em erguer uma muralha de pedras grandes paraproteger dos lobos a sua provisória habitação. Um pouco enfraquecido após dez dias de um regímenexclusivamente composto por bagas de cactos, o jovem mongesentia que a cabeça lhe andava à roda enquanto continuavao trabalho. Há já algum tempo que a paisagem parecia bailar-lhediante dos olhos e via manchas negras flutuarem à suavolta; por isso, a princípio, perguntou a si próprio se aquelabarbuda aparição não seria uma simples miragem provocadapela fome. . . Mas o peregrino não tardou em dissipar-lhe asdúvidas: - Ola allay!, exclamou alegremente, numa voz agradávele melodiosa. Visto que a lei do silêncio o impedia de responder, o jovemmonge limitou-se a esboçar um sorriso, sem erguer o rosto. "Este caminho vai realmente para a abadia?", continuouentão o vagabundo. Sempre sem levantar os olhos, o noviço acenou afirmativamentecom a cabeça, depois inclinou-se para apanhar umpedaço de pedra branca, semelhante a giz. "O que é que aqui faz, no meio de todos estes rochedos?",continuou o peregrino aproximando-se dele. Rapidamente, Frei Francis ajoelhou-se para riscar sobre umagrande pedra lisa as palavras "Solidão e Silêncio". Se soubesseler - o que aliás era pouco provável, considerando as estatísticas- dessa forma o peregrino poderia compreender que asua simples presença era um motivo de pecado para o penitente,e com certeza se retiraria sem insistir. "Ah, bom", disse o barbudo. Ficou um instante imóvel, passeando o olhar em voltadepois bateu com o bordão numa grande rocha: "Olhe, disse, aqui está uma que lhe convinha... Então boasorte, e oxalá encontre a Voz que procura!" De momento, Frei Francis não compreendeu que o estrangeiroquisera dizer "Voz" com V maiúsculo; pensou simplesmenteque o velho o tomara por um surdo-mudo. Depois de lançarum rápido olhar ao peregrino que se afastava assobiando novamente,apressou-se a dedicar-lhe uma bênção silenciosa paraque fizesse boa viagem, depois regressou ao seu trabalho depedreiro, desejoso de construir um recinto fechado em formade caixão no qual se pudesse estender para dormir sem que asua carne servisse de atractivo para os lobos devoradores. Passou-lhe por cima da cabeça um celestial rebanho denuvenzinhas: depois de induzirem cruelmente o deserto em tentação,aquelas nuvens preparavam-se agora para derramar sobreas montanhas a sua húmida bênção... Essa passagem refrescoupor momentos o jovem monge protegendo-o dos escaldantesraios de sol e aproveitou-os para intensificar o seu trabalho,sublinhando cada gesto com orações segredadas para confirmara verdadeira vocação - pois era esse, na verdade, o fim quepretendia atingir durante o período de jejum no deserto. Finalmente, Frei Francis pegou na grande pedra que o peregrinolhe indicara... mas as boas cores que adquirira ao cumpriro seu penoso trabalho abandonaram-lhe o rosto e deixoucair precipitadamente o pedaço de rocha, como se tivesse tocadonuma serpente. Jazia a seus pés uma caixa de lata enferrujada, parcialmenteoculta pelas pedras. . . Levado pela curiosidade, o jovem monge quis imediatamentepegar-lhe, mas primeiro recuou um passo e benzeu-se rapidamente,resmungando em latim, após o que, tranquilizado, nãoreceou dirigir-se à própria lata. "Vade retro, Satanás!", ordenou-lhe, ameaçando-a com opesado crucifixo do seu rosário. "Desaparece, Vil Sedutor!" Tirando dissimuladamente de sob a túnica um minúsculohissope, borrifou a lata com água benta, para o que desse eviesse. "Se és uma criatura diabólica, desaparece!" Mas a caixa não deu provas de querer desaparecer, nem deexplodir, nem sequer de se encarquilhar num odor de enxofre...Contentou-se em continuar tranquilamente no seu lugar, deixandoao vento do deserto o cuidado de fazer evaporar as gotassantificadoras que a cobriam. "Assim seja!", exclamou então o frade ajoelhando-se parapegar no objecto. Sentado no meio das pedras, passou mais de uma horamartelando a caixa com uma grande pedra, a fim de a abrir.Enquanto se dedicava a essa tarefa, veio-lhe a ideia de queaquela relíquia arqueológica - pois era bem visível que disso setratava - talvez fosse um sinal enviado pelo Céu para lhe indicarque a vocação lhe era concedida. No entanto, afastou imediatamentetal ideia, recordando-se a tempo de que o Frei Abade opusera seriamente de sobreaviso contra qualquer revelação pessoaldirecta de carácter espectacular. Se deixara a abadia paracumprir no deserto aquele jejum de quarenta dias, reflectiu, erajustamente para que a penitência lhe proporcionasse uma inspiraçãovinda do Céu, a chamá-lo para as Ordens Sagradas. Nãodevia esperar ser testemunha de visões ou ouvir-se chamar porvozes celestiais: tais fenómenos apenas trariam uma vã e estérilpresunção. Inúmeros noviços tinham trazido do seu retiro nodeserto abundantes histórias de presságios, de premonições evisões celestiais, motivo por que o Frei Abade adoptara uma políticaenérgica em face desses pretensos milagres. "O Vaticano é oúnico qualificado para se pronunciar sobre o assunto, resmungara,e é necessário evitar interpretar como revelação divina oque não passa do resultado de um golpe de sol". Apesar de tudo, no entanto, Frei Francis não podia impedir-sede manipular a velha caixa de metal com infinito respeito,enquanto a martelava o melhor que podia para a abrir... Subitamente a caixa cedeu, espalhando o seu conteúdo pelochão, e o jovem religioso sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.Ia-se-lhe revelar a própria Antiguidade! Apaixonado porarqueologia, tinha dificuldade em acreditar no que via e pensoude repente que Frei Jeris ia ficar doente de inveja - mas logose censurou por esse pensamento pouco caridoso e começoua agradecer ao Céu que o gratificava com semelhante tesouro. Tremendo de emoção, tocou cautelosamente nos objectosque a caixa continha esforçando-se por os espalhar. Os seusantigos estudos permitiram-lhe descobrir no meio do conjuntouma chave de parafusos - espécie de instrumento utilizadooutrora para introduzir na madeira toros de metal com roscas- e uma espécie de pequena tesoura, de lâminas afiadas. Descobriutambém uma ferramenta bizarra, composta por um cabode madeira carunchosa e por uma sólida haste de cobre à qualaderiam ainda algumas parcelas de chumbo derretido, mas nãoconseguiu identificá-la. A caixa continha ainda um pequeno rolode fita negra e aderente, muito deteriorada pelos séculos paraque fosse possível saber do que se tratava, e inúmeros fragmentosde vidro e de metal, assim como diversos desses pequenosobjectos tubulares com escovas de fios de ferro que os pagãosdas montanhas consideravam amuletos, mas que certos arqueólogossupunham ser restos da lendária machina analytica,anterior ao Dilúvio de Chamas. Frei Francis examinou cuidadosamente todos aqueles objectosantes de os colocar a seu lado sobre a grande pedra lisa;quanto aos documentos, resolveu examiná-los em último lugar.Como sempre, aliás, eram eles que constituíam a mais importantedescoberta, tendo em conta o reduzido número de papéisque tinham escapado aos terríveis autos-de-fé ateados durantea Era da Simplificação por uma populaça ignorante e vingativa,que não receava destruir dessa forma os próprios textossagrados. A preciosa caixa continha dois desses inestimáveis papéis,assim como três pequenas folhas de notas manuscritas. Todosaqueles documentos veneráveis eram muito frágeis, por a antiguidadeos ter ressequido e tornado quebradiços; por isso ojovem monge pegou-lhes com a maior das precauções, tendotodo o cuidado em protegê-los do vento com uma aba da túnica.Aliás eram dificilmente legíveis e redigidos em inglês antediluviano,essa língua antiga que, como o latim, já não era utilizada actualmente,a não ser pelos monges e pelo Ritual litúrgico. FreiFrancis começou a decifrá-los lentamente, lendo as palavras depassagem sem lhes penetrar o verdadeiro sentido. Sobre uma daspequenas folhas lia-se: "1 libra de salsicha, 1 lata de choucroutelpara Ema." A segunda folha dizia: "Pensar em ver a fórmula1040 para declaração de impostos." Finalmente a terceira só continhanúmeros e uma longa adição, depois um número quemanifestamente representava uma percentagem subtraída ao totalprecedente e seguida da palavra "Bolas!". Incapaz de compreenderfosse o que fosse daqueles documentos; o monge contentou-seem verificar os cálculos e achou-os certos. Dos outros dois papéis que a caixa continha, um, apertadoem forma de pequeno rolo, ameaçava desfazer-se se se tentassedesenrolá-lo. Frei Francis só lhe conseguiu decifrar duas palavras:"Aposta Mútua", z e voltou a colocá-lo na caixa para o examinarmais tarde, depois de submetido a um tratamento conservadorapropriado. O segundo documento compunha-se de um grande papeldobrado várias vezes, e tão quebradiço no sítio dos vincos queo religioso teve de contentar-se em afastar cuidadosamente aspontas para lançar uma olhadela. Era um plano, um emaranhado confuso de linhas brancas,traçadas sobre fundo azul! Um novo arrepio percorreu a espinha de Frei Francis: eraum azul que ali estava - um desses documentos antigos e raríssimosque os arqueólogos tanto apreciavam e que os sábios eintérpretes especializados encontravam por vezes tanta dificuldadeem decifrar! Mas a inacreditável bênção que semelhante descobertarepresentava não ficava por ali: entre as palavras traçadas numdos ângulos inferiores do documento, eis, de facto, que FreiFrancis descobre subitamente o próprio nome do fundador dasua ordem: o Bem-Aventurado Leibowitz em pessoa!
 1 Guisado regional francês, que consiste em couve, fiambre e salsichas(N. da T.) 2 Sistema francês análogo ao Totobola. (N. da T.)
 As mãos do jovem monge começaram a tremer tanto, na suaalegria, que correu o risco de rasgar o inestimável papel. As últimaspalavras que o peregrino lhe dirigira voltaram-lhe então àmemória: "Oxalá encontres a Voz que procuras!" Era de factouma voz que acabava de descobrir, uma voz com V maiúsculo,semelhante ao que as asas de uma pomba formam quando estadesliza em direcção à Terra vinda do Céu, um V maiúsculo comoo de Trere dignum, ou Vidi aquam, um V majestoso e solene,como os que ornamentam as grandes páginas do Missal - emsuma, um V como o de Vocação! Após um último olhar ao papel azul para ter a certeza deque não sonhava, o religioso entoou as suas acções de graças:aBeate Leibowitz, ora pro me. . . Sancte Leibowitz, exaudi me. . ."- e esta última fórmula não deixava de revelar certa audácia,visto que o fundador da Ordem ainda aguardava ser canonizado! Esquecido das prescrições do Abade, Frei Francis ergueu-sede um salto e investigou o horizonte do lado do sul, na direcçãoem que seguira o velho caminhante com tanga de juta. Mas operegrino há muito que desaparecera. . . Era com certeza um anjodo Senhor, pensou Frei Francis, e - quem sabe? - talvez oBem-Aventurado Leibowitz em pessoa. . . Não lhe indicara eleo local onde descobrira o milagroso tesouro, aconselhando-o adeslocar determinada pedra no momento em que lhe dirigia proféticasdespedidas?. . . O jovem frade continuou mergulhado nas suas exaltantesreflexões até à hora em que o Sol-posto ensanguentou as montanhas,enquanto as sombras do crepúsculo o rodeavam. Só entãoa noite que se aproximava lhe interrompeu a meditação. Dissepara consigo que a inestimável dádiva que acabava de recebercertamente não o colocaria ao abrigo dos lobos, pelo que seapressou a terminar a muralha protectora. Depois, como as estrelasapareciam, reanimou o lume e juntou as pequenas bagas corde violeta dos cactos, que constituíam a sua refeição. Era este oseu único alimento, à excepção da mão-cheia de trigo seco queum padre lhe levava todos os domingos. Por isso acontecia-lhelançar um olhar ávido aos lagartos que percorriam os rochedosvizinhos - e os seus sonhos eram frequentemente povoados depesadelos gulosos. Naquela noite, no entanto, a fome passara para o segundoplano das suas preocupações. O que teria desejado, antes demais, era dirigir-se a toda a pressa à abadia para participar aosseus irmãos o maravilhoso encontro que tivera e a milagrosadescoberta que fizera. Mas, evidentemente, era problema quenem se podia pôr. Quer tivesse ou não vocação, teria de permanecerali até ao fim da Quaresma e continuar a agir comose nada de extraordinário lhe tivesse acontecido.
 "Há-de construir-se uma catedral neste sítio", pensouenquanto meditava junto do fogo. E já a imaginação o fazia vero majestoso edifício que surgiria das ruínas da antiga aldeia, comos seus sinos altaneiros, que poderiam ser vistos de vários quilómetrosem redor. Acabou por adormecer e, quando acordou em sobressaltosó uns vagos tições ardiam ainda na fogueira quase extinta. Tevede súbito a sensação de que não estava só naquele deserto. . .Semicerrando os olhos, esforçou-se por atravessar a escuridãoque o envolvia e foi então que distinguiu, atrás das últimas brasasda sua modesta fogueira, as pupilas de um lobo que brilhavamnas trevas. Soltando um grito de pavor, o jovem mongecorreu a encerrar-se no seu túmulo de pedras secas. O grito que acabava de soltar, pensou ele enquanto seescondia, muito trémulo, no seu refúgio, aquele grito não constituía,na verdade, uma infracção à lei do silêncio... E começoua acariciar a caixa de metal que apertava junto ao coração,enquanto rezava para que a Quaresma terminasse rapidamente.À sua volta, as pedras do esconderijo eram arranhadas porgarras. . .
 * Todas as noites os lobos rondavam o miserável abrigo dofrade, enchendo as trevas com os seus uivos de morte, enquantodurante o dia, ele era atacado por autênticos pesadelos provocadospela fome, pelo calor e pelas impiedosas queimaduras dosol. Frei Francis ocupava os dias a apanhar madeira para queimare também a rezar, empenhando-se em martirizar a própriaimpaciência de ver finalmente chegar o Sábado Santo que marcariao fim da Quaresma e do seu jejum. No entanto, quando esse bendito dia surgiu enfim, o jovemmonge estava demasiado enfraquecido pelas privações paraarranjar forças para se alegrar. Vencido por uma enorme fadiga,arranjou a sacola, pôs o capuz na cabeça para se preservar dosol e colocou debaixo do braço a preciosa caixa. Com menosuma quinzena de quilos em relação à Quarta-Feira de Cinzas,e num andar vacilante, iniciou o percurso de dez quilómetrosque o separavam da abadia... Esgotado, deixou-se cair nomomento em que atingia a porta; os frades que o recolherame prodigalizaram os primeiros cuidados à sua pobre carcaça desidratadacontaram que, enquanto delirava, não cessara de falarnum anjo com tanga de juta e de invocar o nome do Bem-AventuradoLeibowitz, agradecendo-lhe com fervor o facto de lheter revelado as relíquias sagradas, assim como a Aposta Mútua. A notícia desses vaticínios espalhou-se pela comunidade echegou rapidamente aos ouvidos do Padre Abade, responsávelpela disciplina geral, o qual logo se enfureceu. "Tragam-moaqui!", disse num tom capaz de dar asas aos menos solícitos. Enquanto esperava o jovem monge, o Abade passeou de umlado para o outro, ao mesmo tempo que a cólera o invadia. Nãoera, evidentemente, contra os milagres, longe disso. Emborafossem dificilmente compatíveis com as necessidades da administraçãointerna, o bom Padre acreditava piamente em milagres,visto que constituiam a própria base da sua fé. Mas achava queesses milagres deviam pelo menos ser devidamente controlados,verificados e autenticados nas formas prescritas, segundo asregras estabelecidas. Depois da recente beatificação do veneradoLeibowitz, de facto, aqueles jovens loucos dos monges resolviamdescobrir milagres em toda a parte. Por compreensível que na verdade fosse essa propensãopara o maravilhoso, nem por isso era menos intolerável. Evidentemente,toda a ordem monástica digna desse nome tem o maiorinteresse em contribuir para a canonização do seu fundador,reunindo com o maior zelo todos os elementos susceptíveis deconcorrerem para o facto, mas há limites! Ora, de há uns temposa essa parte, o Abade constatara que o seu rebanho de mongestinha tendência para escapar à sua autoridade, e o apaixonadozelo que os jovens frades punham em descobrir e recensear osmilagres metera de tal forma a ridículo a Ordem Albertiana deLeibowitz que até no Novo Vaticano já troçavam do facto... Por isso o Padre Abade estava bem decidido a ser severo:dali para o futuro, qualquer propagador de notícias milagrosassofreria um castigo. No caso de se tratar de um falso milagre,o responsável pagaria dessa forma o preço da indisciplina e dacredulidade; no caso de um milagre autêntico, revelado por verificaçõesulteriores, pelo contrário, o castigo sofrido constituiriaa penitência obrigatória que devem sofrer todos aqueles quebeneficiam da dádiva de uma graça. No momento em que o jovem noviço bateu timidamenteà porta, o bom Padre, que chegara ao final das suas reflexões,encontrava-se portanto na disposição que convinha para acircunstância, um estado de espírito realmente feroz, dissimuladosob a mais hipócrita das aparências. - Entre, meu filho - disse numa voz suave. - Mandou-me chamar, meu Reverendo Padre? - inquiriuo noviço, e teve um sorriso encantado ao descobrir a sua caixade metal em cima da mesa do Abade. - Mandei - respondeu o Padre, que pareceu hesitar uminstante. "Mas - prosseguiu - é talvez preferível que, daqui emdiante, seja eu que o procure, visto que se tem transformadonuma personagem tão célebre? - Oh!, não, meu Padre! - exclamou Frei Francis, escarlatee meio sufocado. - Tem dezassete anos, e é visível que não passa de umimbecil. Sem dúvida alguma, meu Reverendo. - Nessas condições, quer dizer-me por que insensato motivo se acha digno de entrar para as Ordens? - Não tenho absolutamente nenhum motivo, ó meu venerávelmestre. Não passo de um miserável pecador cujo orgulhonão tem perdão. - E ainda aumentas os teus pecados - rugiu o Abade -,supondo o teu orgulho tão grande que é imperdoável! - É verdade, meu Padre. Não passo de um verme. O Abade teve um sorriso glacial e recuperou a sua calmavigilante. - Está então disposto a desdizer-se - continuou - e arenegar todas as divagações que proferiu sob o efeito da febrea propósito de um anjo que lhe teria aparecido e lhe teriaconfiado este. . . (designou com um gesto desdenhoso a caixa demetal). . . esta miserável pacotilha? Frei Francis teve um sobressalto e fechou receosamente osolhos. - Eu. . . receio muito não o poder fazer, ó meu mestre dissenum sopro. - O quê?! - Não posso negar o que os meus olhos viram, meuReverendo Padre. - Sabe o castigo que o espera? - Sei. meu Padre. - Muito bem. Prepare-se portanto para o receber. Com um suspiro resignado, o noviço arregaçou a longatúnica até à cintura e inclinou-se sobre a mesa. Tirando entãoda gaveta uma sólida vara de nogueira, o bom Padre vergastou-lhedez vezes seguidas o traseiro. (Após cada golpe, o noviçopronunciava com submissão o Deo gratias! merecido pela liçãode humildade que dessa forma lhe era concedida). - E agora - perguntou o Abade, recompondo as mangas-, está disposto a desdizer-se? - Meu Padre, não posso fazê-lo. Voltando-lhe bruscamente as costas, o padre ficou pormomentos silencioso. - Muito bem - disse por fim numa voz mordaz. - Sejacomo o deseja. Mas não conte tomar ordens solenes este ano,ao mesmo tempo que os outros. Banhado em lágrimas, Frei Francis regressou à sua cela.Os outros noviços receberiam o trajo monacal, ao passo que ele,pelo contrário, teria de esperar ainda um ano e passar outra Quaresmano deserto, no meio dos lobos, em busca de uma vocaçãoque no íntimo sabia que lhe fora amplamente concedida. . . No decorrer das semanas que se seguiram, o desgraçadoteve pelo menos a consolação de constatar que o Abade nãotivera inteiramente razão ao classificar o conteúdo da caixa demetal de "desprezível pacotilha". Aquelas relíquias arqueológicasera evidente que tinham despertado vivo interesse entre osFrades que dedicavam muito tempo à sua limpeza e arrumação;esforçavam-se, igualmente, por restaurar os documentos escritose por lhes decifrar o sentido. Corria mesmo o boato, na comunidade,de que Frei Francis descobrira realmente as verdadeirasrelíquias do Bem-Aventurado Leibowitz - particularmente soba forma do documento, ou azul, que tinha o seu nome e sobreo qual se viam ainda algumas manchas acastanhadas. (Sanguede Leibowitz, talvez? O Padre Abade era de opinião que setratava de sumo de maçã). Em todo o caso, o documento tinhaa data do Ano da Graça de 1956, o que parecia provar que eracontemporâneo do venerando fundador da Ordem. Aliás sabia-se muito pouco a respeito do Bem-Aventurado Leibowitz;a sua história perdia-se na bruma do passado, que aindamais obscurecia a lenda. Afirmava-se simplesmente que Deus, parapôr à prova o género humano, ordenara aos sábios de outrora entreos quais figurava o Bem-Aventurado Leibowitz - que aperfeiçoassemcertas armas diabólicas, graças às quais o Homem,no espaço de algumas semanas, conseguira destruir o essencial dacivilização, suprimindo ao mesmo tempo grande número dos seussemelhantes. Dera-se então o Dilúvio de Chamas, seguido da pestee de flagelos diversos, e finalmente da loucura colectiva que viriaa conduzir à Idade da Simplificação. No decurso desta últimaépoca, os derradeiros representantes da humanidade, invadidospor um furor vingativo, cortaram às postas todos os politiqueiros,técnicos e homens de ciência; além disso, queimaram todas asobras e documentos que teriam permitido enveredar novamentepelas vias da destruição científica. Naquele tempo perseguiramcom um ódio sem precedentes todos os escritos, todos os homenscultos - a tal ponto que a palavra "papalvo" acabara por sersinónimo de cidadão honesto, íntegro e virtuoso. Para escapar à legítima cólera dos papalvos sobreviventes,muitos sábios e eruditos tentaram refugiar-se no seio da NossaMadre Igreja. De facto Ela acolheu-os, cobriu-os com trajosmonacais e esforçou-se por os subtrair às perseguições da populaça.Aliás este processo nem sempre resultou, pois alguns mosteirosforam invadidos, os arquivos e os textos sagrados lançadosà fogueira, enquanto os que ali se tinham refugiado eram enforcados.No que se refere a Leibowitz, encontrara asilo entre osCistercienses. Tendo tomado ordens, tornou-se padre e, ao fimde doze anos, foi-lhe concedida autorização para fundar umanova ordem monástica, a dos "Albertianos", assim chamada emmemória de Alberto o Grande, professor do famoso São Tomásde Aquino e padroeiro de todos os cientistas. A congregaçãorecentemente criada devia dedicar-se à protecção da cultura,tanto sagrada como profana, e os seus membros teriam comoobrigação principal transmitir às gerações seguintes os raroslivros e documentos que tinham escapado à destruição e queos obrigavam a manter escondidos. Finalmente certos papalvosreconheceram em Leibowitz um antigo sábio e condenaram-noà forca. No entanto, a Ordem que fundara nem por isso deixoude funcionar e os seus membros, logo que foi novamente dadaautorização de possuir documentos escritos, puderam mesmodedicar-se a transcrever de memória numerosas obras do passado.Mas sendo a memória desses analistas forçosamente limitada(aliás, eram poucos os que possuíam cultura suficiente paracompreender as ciências físicas), os frades copistas consagravama maior parte dos seus esforços aos textos sagrados assimcomo às obras referentes às belas-letras ou às questões sociais.Por esse motivo, de todo o imenso repertório de conhecimentoshumanos apenas sobreviveu uma insignificante colecção depequenos tratados manuscritos. Após seis séculos de obscurantismo, os monges continuavama estudar e a recopiar a sua pobre colheita. Aguardavam... Evidentemente,a maior parte dos textos que tinham salvado não lhesserviam para nada - mantendo-se, alguns deles, rigorosamenteincompreensíveis para os monges. Mas, para aqueles bons religiosos,bastava saber que eram senhores do Conhecimento: saberiamsalvá-lo e transmiti-lo, como exigia o seu dever - e isto, mesmoque o obscurantismo universal viesse a durar dez mil anos... Frei Francis Gérard de L'Utah voltou para o deserto no anoseguinte e ali fez, solitariamente, o seu jejum. Mais uma vezregressou ao mosteiro fraco e emagrecido, e novamente foi convocadopelo Padre Abade, que lhe perguntou se estava finalmentedecidido a renegar as suas extravagantes declarações.
 "Não posso, meu Padre - repetiu ele -, não posso negaro que vi com os meus próprios olhos".
 E o Abade, uma vez mais, o castigou; uma vez mais, também,adiou para uma data ulterior a sua entrada nas ordens... No entanto, os documentos contidos na caixa de metaltinham sido confiados a um seminário, para estudo, depois detirada uma cópia. Mas Frei Francis continuava a ser um simplesnoviço, um noviço que ainda sonhava com o magnífico santuárioque um dia seria edificado no local da sua descoberta. . .
 "Diabólica teimosia!, explodia o Abade. Se o peregrino deque aquele idiota se obstina a falar se dirigia, como diz, paraa nossa abadia, como seria possível que nunca o tivéssemosvisto?... Um peregrino com tanga de juta, hã?!" No entanto, essa história da tanga de juta não deixava de inquietar o bom do Padre. De facto, segundo a tradição, o Bem-Aventurado Leibowitz, na altura do enforcamento, levara um saco de juta na cabeça, à guisa de capuz. *
 Frei Francis manteve-se noviço durante sete anos e viveu no deserto sete Quaresmas sucessivas. Com esse regímen tornou-se mestre na arte de imitar o uivo dos lobos e aconteceu várias vezes, por questão de brincadeira, arrastar a matilha de feras até aos muros da abadia, por noites sem Lua... Durante o dia contentava-se em trabalhar nas cozinhas e esfregar as lajes do mosteiro, ao mesmo tempo que continuava a estudar autoresantigos. Um belo dia chegou à abadia um enviado do semináriomontado num burro, portador de uma notícia muito agradável. "Está provado, anunciou ele, que os documentos encontradosperto daqui pertencem realmente à data indicada e, especialmente,que o azul se relaciona de certa maneira com acarreira do vosso bem-aventurado fundador. Enviaram-no aoNovo Vaticano, que o estudará mais profundamente. - Nesse caso - perguntou o Abade -, poder-se-ia tratar,no fim de contas, de uma autêntica relíquia de Leibowitz? Mas o mensageiro, pouco disposto a comprometer-se, limitou-sea arquear as sobrancelhas. - Diz-se que Leibowitz era viúvo, quando da sua ordenação- murmurou. - Evidentemente, se fosse possível descobriro nome da sua defunta esposa. . . Foi então a vez do Abade, ao lembrar-se da pequena notaonde figurava um nome de mulher, de erguer também assobrancelhas. . . Pouco depois mandou chamar Frei Francis. - Meu filho - declarou-lhe num tom positivamenteradiante -, creio chegada para si a altura de poder finalmentetomar ordens solenes. Que me seja permitido felicitá-lo pelapaciência e firmeza de opiniões de que não tem cessado denos dar provas. Evidentemente, nunca mais falaremos do seu...hum... encontro com um hum! - caminhante do deserto.meu filho, é um bom papalvo, e pode ajoelhar-se se deseja queo abençoe. Frei Francis soltou um profundo suspiro e perdeu os sentidos,fulminado pela emoção. O Padre abençoou-o, depois reanimou-oe permitiu que pronunciasse os seus votos perpétuos:pobreza, castidade, obediência - e observância da regra. Pouco tempo depois, o novo professor da Ordem Albertianados Frades de Leibowitz foi afectado à sala dos copistas, sob avigilância de um velho monge chamado Horner, e começoua ornamentar conscienciosamente as páginas de um tratado deálgebra com belas iluminuras representando ramos de oliveira equerubins bochechudos. - Se assim o deseja - participou-lhe o velho Horner na suavoz cansada -, pode dedicar cinco horas por semana a qualquerocupação à vossa escolha, sob reserva de aprovação, evidentemente.Caso contrário, utilizará essas horas de labor facultativocopiando a Summa Theological, assim como os fragmentosda Enciclopédia Britânnica que nos vieram parar às mãos. Depois de ter reflectido no assunto, o jovem monge perguntou : - Ser-me-ia permitido consagrar essas horas a fazer umabela cópia do documento de Leibowitz? - Não sei, meu filho - replicou Frei Horner franzindo osobrolho. - Trata-se de um assunto a respeito do qual o nossoexcelente Padre se mostra um pouco irritado, como sabe...Enfim, concluiu perante as súplicas do jovem copista, acedoapesar de tudo a dar-lhe o meu consentimento, pois é um trabalhoque não lhe tomará muito tempo. Frei Francis arranjou portanto o mais belo pergaminho quepôde encontrar e passou longas semanas a raspar e polir a pelecom uma pedra lisa, até que conseguiu dar-lhe uma resplandecentebrancura de neve. Depois consagrou outras semanas aestudar as cópias do precioso documento, até que decorou todoo traçado, todo o misterioso emaranhado de linhas geométricase de símbolos incompreensíveis. Por fim, sentiu-se capaz dereproduzir de olhos fechados a espantosa complexidade dodocumento. Então, ainda passou várias semanas a revistar abiblioteca do mosteiro em busca de documentos que lhe permitissemfazer uma ideia, mesmo vaga, do significado do plano. ' Evidentemente que se deve tratar de A Suma Teológica, de SãoTomás de Aquino. Frei Jeris, um jovem monge que também trabalhava na salados copistas e troçara muitas vezes dele e das suas milagrosasaparições no deserto, surpreendeu-o entregue a essa tarefa. - Posso perguntar-lhe - disse inclinando-se-lhe por cimado ombro - o significado da menção "Mecanismo de ControloTransitorial para Elemento 6-B"? - É evidentemente o nome do objecto que o esquema representa- replicou Frei Francis num tom um pouco seco -, poisFrei Jeris apenas lera em voz alta o título do documento. - Sem dúvida. . . Mas então o que representa esse esquema? - Mas... o mecanismo de controlo transitorial de um elemento6-B, evidentemente! Frei Jeris soltou uma gargalhada, e o jovem copista sentiu-secorar. - Suponho - continuou que o esquema representa narealidade qualquer conceito abstracto. Na minha opinião, esteMecanismo de Controlo Transitorial devia ser uma abstracçãotranscendental. - E em que categoria de conhecimento classificaria a vossaabstracção? - perguntou Jeris, sempre sarcástico. - Bom, vejamos... - Frei Francis hesitou um momento,depois continuou: - tendo em conta os trabalhos que o Bem-AventuradoLeibowitz realizava antes de se dedicar à religião,parece-me que o conceito de que aqui se trata se referiaa essa arte hoje esquecida e a que outrora se chamava electrónica. - De facto, essa palavra figura nos textos escritos que nosforam transmitidos. Mas o que é que significa exactamente? - Os textos também no-lo dizem: o objectivo da electrónicaera a utilização do Electrão, que um dos manuscritos emnosso poder, infelizmente em fragmentos, nos define como umaporsão do Nada Negativamente Carregada 1. ' Definição exacta (dada pelo Pr. Léon Brillouin, depois retomada porRobert Andrews Mullikan, prémio Nobel). De facto é incompreensível,caso não se possua o contexto, isto é, toda a complexa estrutura da nossafísica. A sua subtileza impressiona-me - extasiou-se Jeris.Possoainda perguntar-lhe o que é a negação do nada?
 Frei Francis, cada vez mais corado, embasbacou. - A torsão negativa do nada - prosseguiu o impiedosoJeris - deve apesar de tudo ir dar a qualquer coisa de positivo.Portanto, Frei Francis, suponho que acabará por nos criar essaqualquer coisa, se nisso empenhar todos os seus esforços.Graças a si, não há dúvida de que acabaremos por possuir essefamoso Electrão. Mas que faremos então dele? Onde o meteremos?Em cima do altar-mor, talvez? - Não faço a menor ideia - replicou Francis, que começavaa enervar-se -; e também ignoro o que era um Electrão,assim como a utilidade que poderia ter. Tenho apenas a profundaconvicção de que deve ter existido, numa determinadaépoca, e é tudo. Soltando um riso trocista, Jeris o iconoclasta deixou-o eregressou ao seu trabalho. Esse incidente entristecera Frei Francis,sem no entanto o afastar do projecto que acalentava. Assim queassimilou as informações que a biblioteca do Mosteiro lhe podiafornecer sobre a arte perdida em que Leibowitz se celebrizara,esboçou alguns anteprojectos do plano que queria reproduzirsobre o pergaminho. O próprio esquema, visto que não conseguiapenetrar-lhe o significado, seria reproduzido com todo ocuidado, tal como se apresentava no documento original. Paraisso empregaria tinta preta; em contrapartida, utilizaria tintas decor e caracteres de fantasia altamente decorativos para reproduziros números e as legendas do plano. Decidiu igualmentequebrar a austera e geométrica monotonia da sua reproduçãoornamentando-a com pombas e querubins, parras verdejantes,frutos dourados e aves multicolores - até mesmo de umaartificiosa serpente. Ao alto da obra desenharia uma representaçãosimbólica da Santíssima Trindade, e em baixo, para fazersimetria, um desenho da cota de malha que servia de emblemaà Ordem. O Mecanismo de Controlo Transitorial do Bem-AventuradoLeibowitz estaria desta forma dignificado como convinhae a sua mensagem dirigir-se-ia tanto aos olhos como ao espírito. Assim que terminou o esboço preliminar, submeteu-o timidamenteà opinião de Frei Horner. - Apercebo-me - disse o velho monge com certo ar de remorso - de que este trabalho o ocupará muito mais tempo'; do que pensei... Mas pouco importa: continue. O desenho é belo, realmente muito belo. - Obrigado, meu irmão. Frei Horner teve um piscar de olhos para o jovem religioso: - Disseram-me - murmurou em tom de confidênciaque decidiram activar as formalidades necessárias para a canonização do Bem-Aventurado Leibowitz. Portanto, é provável que actualmente o nosso bondoso Padre se sinta muito menos inquieto com aquilo que sabemos. Evidentemente, todos estavam ao corrente dessa importante notícia. A beatificação de Leibowitz há muito que era um facto consumado, mas as últimas formalidades que fariam dele um santo podiam exigir ainda um bom número de anos. Além disso, havia sempre a recear que o Advogado do Diabo descobrisse qualquer motivo que tornasse impossível a Canonização projectada.Ao fim de vários meses, Frei Francis começou finalmente a trabalhar sobre o seu belo pergaminho, traçando amorosamenteos finos arabescos, as volutas complicadas e as elegantesiluminuras, realçadas por folhas douradas. Era um trabalho de grande fôlego que ele empreendera, um trabalho que exigia vários anos para ser levado a bom fim. Os olhos do copista, como é natural, foram submetidos a uma rude prova e por vezes viu-se obrigado a interromper o seu labor durante longassemanas, com receio de que um descuido motivado pela fadiga fosse estragar todo conjunto. Todavia, pouco a pouco, a obra criava forma, e apresentava uma beleza tão grandiosa que todos os monges da abadia se empenhavam em a contemplarcom admiração. Apenas o céptico Frei Jeris continuava a criticar. "Pergunto a mim próprio, dizia ele, porque não empregao tempo num trabalho útil." Quanto a ele, era nesse género de trabalhos que ocupava "o seu tempo, visto que fabricava abatjours de pergaminhoornamentado para as candeias de azeite da capela. Entretanto, o velho Frei Horner adoeceu e começou a enfraquecerrapidamente. Nos primeiros dias do Advento, os seusirmãos cantaram em sua intenção a Missa dos Defuntos e confiaram-lheos despojos à terra original. O Abade escolheu FreiJeris para suceder ao defunto na vigilância dos copistas e oinvejoso imediatamente aproveitou o facto para ordenar a FreiFrancis que abandonasse a sua obra-prima. Já era tempo, disse-lhe,de acabar com aquelas infantilidades; agora era altura 'de fabricar abatjours. Frei Francis colocou em lugar seguro ofruto das suas vigílias e obedeceu sem recalcitrar. Enquantopintava os seus abatjours, consolava-se pensando que todossomos mortais... Um dia, sem dúvida, a alma de Frei Jeris iriajuntar-se no Paraíso à alma de Frei Horner, pois no fim decontas a sala dos copistas nunca fora mais do que a antecâmarada Vida Eterna. Então, se essa fosse a vontade de Deus, ser-lhe-iapermitido continuar a obra-prima interrompida. . . No entanto, a divina Providência encarregou-se do casomuito antes da morte de Frei Jeris. Logo no Verão seguinteapresentou-se à porta do mosteiro um bispo que cavalgavamontado numa mula, acompanhado por um numeroso séquitode dignitários eclesiásticos. O Novo Vaticano, anunciou, encarregara-ode ser o advogado da canonização de Leibowitz e vinharecolher junto do Padre Abade todas as informações susceptíveisde o auxiliar na sua missão; em particular, desejava esclarecimentosa respeito de uma aparição terrestre do Bem-Aventurado,com que fora agraciado um certo Frei Francis Gerard deL'Utah. O enviado do Novo Vaticano foi calorosamente acolhido,como é da praxe. Instalaram-no nos aposentos reservados aosprelados de passagem e puseram-lhe às ordens seis jovens noviçosatentos a satisfazer os seus mínimos desejos. Abriram em suahonra as melhores garrafas, assaram-se as mais delicadas avese chegaram ao ponto de se preocupar com as suas distrações,arranjando-lhe, todas as noites, vários violinistas e uma companhiainteira de palhaços. Havia três dias que o bispo ali estava quando o bom PadreAbade fez comparecer diante dele Frei Francis. - Monsenhor Di Simone deseja vê-lo - disse-lhe.Setiver a infelicidade de dar livre curso à sua imaginação, atiraremosa sua carcaça aos lobos e os seus ossos serão sepultadosem terra que não seja sagrada... Agora, meu filho, vá em paz:Monsenhor está à sua espera. Frei Francis não tinha a menor necessidade da advertênciado bom Padre para refrear a língua. Desde o longínquo dia emque a febre o tornara loquaz, depois da primeira Quaresmapassada no deserto, evitara falar fosse a quem fosse no encontrocom o peregrino. Mas perturbava-o ver que as maiores autoridadeseclesiásticas se interessavam bruscamente por esse mesmoperegrino, por isso o coração batia-lhe com força quando seapresentou diante do bispo. Aliás o seu pavor revelou-se sem o menor fundamento.O prelado era um velho muito paternal, que parecia interessar-seacima de tudo pela carreira do fradinho. - E agora - disse-lhe ele, após alguns momentos deamena conversa -, fale-me do encontro que teve com o vossoBem-Aventurado fundador. - Oh, Monsenhor! Eu nunca disse que se tratava do Bem-AventuradoLeibo. . . - Claro, meu filho, claro... Aliás, trouxe-lhe um auto dessaaparição. Foi elaborado segundo informações recolhidas nas melhoresfontes. Peço-lhe apenas para o ler. Após o que me confirmaráa exactidão do mesmo, ou, se for necessário, corrigi-lo-á. Bementendido, este documento baseia-se apenas no que se diz.Na realidade, só o Frei Francis nos pode dizer o que na verdadese passou. Peço-lhe portanto para o ler muito atentamente. Frei Francis pegou no espesso maço de papéis que o preladolhe estendia e começou a ler a descrição oficial com umaapreensão cada vez maior, que não tardou em degenerar numverdadeiro pavor. - Muda de expressão, meu filho - notou o bispo. - Teráconstatado algum erro?
 - Mas. . . mas. . . não foi assim. . . não foi nada assim que ascoisas se passaram! - exclamou o desgraçado monge, aterrado.- Só o vi uma vez e ele limitou-se a perguntar-me o caminhopara a abadia. Depois bateu com o bordão sobre a pedradebaixo da qual descobri as relíquias. . . - Se estou a compreenderbem, não houve então coro celestial?
 - Oh, não! - Nem auréola em redor da sua cabeça, nem tapete derosas desenrolando-se sob os seus passos à medida que eleavançava? - Perante Deus que me observa, Monsenhor, afirmo quenada disso aconteceu! - Bom, bom - disse o bispo suspirando. - Bem sei queas histórias que os viajantes narram contêm sempre uma grandedose de exagero. . . Como parecia desiludido, Frei Francis apressou-se a pedirdesculpas, mas o advogado do futuro santo acalmou-o com umgesto: - Não tem importância, meu filho - assegurou-lhe. - Nãonos faltam milagres, devidamente controlados, graças a Deus!..Em todo o caso os papéis que descobristes tiveram pelo menosuma utilidade, visto que nos permitiram descobrir o nome daesposa do vosso venerável fundador, a qual morreu, como sabe,antes de ele se dedicar à religião.
 - Realmente, Monsenhor? - Sim. Chamava-se Emília. Manifestamente muito desapontado com a descrição que ojovem monge lhe fizera do encontro com o peregrino, MonsenhorDi Simone nem por isso deixou de passar cinco dias inteirosno local onde Francis descobrira a caixa de metal. Acompanhava-ouma corte de noviços, agitando pás e enxadas... Depois deterem cavado muito fundo, o bispo regressou à abadia, na noitedo quinto dia, com um rico espólio de diversas relíquias, entreas quais uma velha caixa de alumínio que continha ainda algunsvestígios de uma massa ressequida que talvez tivesse sidooutrora, "choucroute".
 Antes de deixar a abadia, visitou a sala dos copistas e quisver a reprodução que Frei Francis tinha feito do célebre papelazul de Leibowitz. O monge, ao mesmo tempo que protestavadizendo tratar-se de coisa sem importância, exibia-o com mãotrémula. "Apre!, exclamou o bispo (pelo menos foi o que julgaramouvir). É preciso terminar este trabalho, meu filho, épreciso!" Sorridente, o monge procurou o olhar de Frei Jeris. Maso outro apressou-se a voltar a cabeça... No dia seguinte, FreiFrancis metia novamente mãos à obra, com grande reforço depenas de pato, folhas douradas e variados pincéis.
 * ... Continuava ocupado naquela tarefa quando se apresentouno convento uma nova delegação vinda do Vaticano. Desta veztratava-se de um grupo numeroso, incluindo mesmo guardasarmados para impedir os ataques dos salteadores de estrada.À cabeça, orgulhosamente montado numa mula preta, pavoneava-seum prelado com a cabeça ornamentada com pequeninoschifres e a boca com longos colmilhos acerados (foi, pelomenos, o que mais tarde afirmaram vários noviços). Apresentou-secomo o Advocatus Diaboli, encarregado de se opor portodos os meios à canonização de Leibowitz, e explicou quevinha à abadia para investigar sobre certos boatos absurdos,postos a circular por fradinhos histéricos, e cujo rumor chegaraaos ouvidos das autoridades supremas do Novo Vaticano. Bastavaolhar para aquele emissário para imediatamente ver que nãoera pessoa que se deixasse enganar. O Abade acolheu-o delicadamente e ofereceu-lhe um pequenoleito todo de ferro, numa cela exposta ao sul, pedindo desculpapor não o poder alojar nos aposentos de honra, provisoriamenteinabitáveis por uma questão de higiene. Este novo hóspede contentou-se,para o seu serviço, com as pessoas do seu séquitoe, no refeitório, partilhou das refeições habituais dos monges:ervas cozidas e caldo de raízes. - Disseram-me que está sujeito a crises nervosas, comperda de sensibilidade - disse ele a Frei Francis quando omonge compareceu na sua frente. - Quantos loucos ou epilépticoshouve nos seus ascendentes ou parentes? - Nenhum, Excelência. - Não me chame Excelência! - rugiu o dignitário.Efique sabendo que não terei a menor dificuldade em fazer-lhedizer toda a verdade. Falava do assunto como de uma intervenção cirúrgica dasmais banais e era visível que achava que deveria ter sido feitahá muitos anos. - Não ignora - continuou - que existem processos paraenvelhecer artificialmente os documentos, não é verdade? Frei Francis ignorava-o. - Sabe igualmente que a mulher de Leibowitz se chamavaEmília e que Ema não é de forma nenhuma o diminutivo dessenome? Francis também não tinha grandes conhecimentos a respeitodo assunto. Lembrava-se simplesmente que os pais, na suainfância, empregavam por vezes certos diminutivos um pouco aoacaso... "E depois, pensou, se o Bem-Aventurado Leibowitzabençoadoseja ele! - decidiu chamar Ema à mulher, estoucerto de que sabia o que fazia..." O enviado do Novo Vaticano começou então a dar-lhe umalição de semântica com tamanha impetuosidade que o pobrezinhodo frade julgou que ia enlouquecer. No final dessa tumultuosasessão já nem sequer sabia se alguma vez encontrara ounão um peregrino. Antes da partida, o Advogado do Diabo quis também vera cópia iluminada que Francis fizera e o pobre apresentou-lhacom a morte na alma. O prelado, a princípio, pareceu atrapalhado;depois engoliu em seco e fez um esforço para dizerqualquer coisa. - É evidente que não lhe falta imaginação. Mas, quantoa isso, creio que já todos o sabiam aqui. Os chifres do emissário tinham encurtado vários centímetrose ele partiu nessa mesma noite para o Novo Vaticano.
 * . . . E os anos passaram, acrescentando algumas rugas aosrostos juvenis, alguns cabelos brancos às têmporas dos monges.No mosteiro a vida corria como de costume, e os mongescontinuavam absorvidos nas suas cópias, como antigamente.Frei Jeris, um belo dia, resolveu construir uma prensa paraimprimir. Quando o abade lhe perguntou o motivo só souberesponder: - Para aumentar a produção. - Ah, sim? - disse o Padre. - E para que pensa quepoderiam servir as suas papeladas, num mundo em que se é tãofeliz por não saber ler? Talvez as possa vender aos camponesespara acenderem o lume, não acha? Mortificado, Frei Jeris encolheu tristemente os ombros eos copistas do mosteiro continuaram a trabalhar com penasde pato. . . Numa manhã de Primavera, um pouco antes da Quaresma,apresentou-se no mosteiro um novo mensageiro trazendo umaboa, excelente notícia: os documentos reunidos para a canonizaçãode Leibowitz já estavam completos, o Sacro Colégio não tardariaa reunir-se e o fundador da Ordem dos Albertianos em brevefiguraria entre os santos do calendário. Enquanto toda a confraria se regozijava, o Padre Abade muitovelho, actualmente, e bastante gagá - mandou chamarFrei Francis. - Sua Santidade exige a sua presença por ocasião dasfestas que se vão realizar para a Canonização de Isaac EdwardLeibowitz - cuspinhou ele. - Prepare-se para partir. E acrescentou num tom resmungão: - Se deseja desmaiar, vá fazê-lo para longe daqui!
 * A viagem do jovem monge até ao Novo Vaticano exigiriapelo menos três meses - talvez mesmo mais: tudo dependiada distância que pudesse percorrer antes que os inevitáveissalteadores de estrada o privassem do seu burro. Partiu só e sem armas, munido apenas de uma gamela demendigo. Apertava contra o coração a cópia iluminada do planode Leibowitz e pedia a Deus, enquanto avançava, que não lhoroubassem. . . É verdade que os ladrões eram pessoas ignorantese não saberiam que destino lhe dar. . . Por precaução, apesarde tudo, o monge ostentava um pedaço de tecido negro sobreo olho direito. Os camponeses eram supersticiosos, de facto, e asimples ameaça de "mau olhado" bastava por vezes para os pôrem fuga. Após dois meses e alguns dias de viagem, Frei Francisencontrou o seu gatuno, num atalho da montanha ladeado porespesso mato, longe de qualquer habitação. Era um homembaixo, mas visivelmente sólido como um boi. As pernas afastadas,os braços vigorosos cruzados sobre o peito, estava paradoa meio do atalho, à espera do monge, que ia lentamente ao seuencontro, no passo vagaroso da sua montada... Parecia estar sóe como arma apenas tinha uma faca que nem sequer retiroudo cinto. O encontro causou grande desapontamento ao monge:de facto, no íntimo do seu coração, não cessara de acreditar que,ao longo do caminho, encontraria o peregrino de outrora. - Alto! - ordenou o ladrão. O burro parou por sua livre vontade. Frei Francis ergueuo capuz para mostrar a pala preta e dela aproximou lentamentea mão, como se se preparasse para revelar qualquer espectáculohorrível, dissimulado sob o tecido. Mas o homem, atirando acabeça para trás, soltou um riso sinistro e verdadeiramente satânico.O monge apressou-se a murmurar um exorcismo, com oqual o ladrão não pareceu impressionado. - Há muitos anos que isso não pega - disse ele.Vamos,salta para o chão, e depressa! Frei Francis encolheu os ombros, sorriu e desceu da montadasem protestar. - Desejo-lhe muito boa tarde, senhor! - disse num tomamável. - Pode ficar com o burro, a caminhada far-me-á bem. E já se afastava, quando o ladrão lhe barrou o caminho. - Espera! Despe-te todo, e mostra-me o que há dentrodesse embrulho! O monge mostrou-lhe a gamela, com um pequeno gesto deescusa, mas o outro começou a rir cada vez mais. - O truque da pobreza. . . também já mo empregaram!afirmouele à sua vítima em tom sarcástico -, mas o últimopedinte que mandei parar tinha meio heklo de ouro na bota. . .Vamos, despe-te depressa! Depois de o monge ter cumprido a ordem, o homem revistou-lheas roupas, nada encontrou e voltou a entregar-lhas. - Agora - continuou -, vejamos esse embrulho. - É apenas um documento, senhor - protestou o frade -,um documento sem valor a não ser para o proprietário. - Abre o embrulho, já te disse! Frei Francis obedeceu sem uma palavra e as iluminuras dopergaminho em breve brilharam sob os raios solares. O gatunodeu um assobio admirativo. - Bonito! A minha mulher é que vai ficar contente porpoder pregar isto na parede da cabana! A estas palavras, o pobre monge sentiu o coração parar ecomeçou a murmurar uma silenciosa oração: "Se tu mo enviastepara me pôr à prova, ó Senhor", suplicou com fervor, "dá-mepelo menos a coragem de morrer como um homem, pois se estáescrito que ele mo vai roubar, só o poderá tirar ao cadáver doseu indigno servo!" - Embrulha-me o objecto! - ordenou de súbito o ladrão,cuja decisão estava tomada. - Por quem é, senhor - gemeu Frei Francis -; não querdecerto privar um pobre homem de um trabalho em que empenhoua vida inteira. . . Passei quinze anos a iluminar este manuscritoe. . . - O quê? - interrompeu o gatuno. - Foste tu próprio queo fizeste? E começou a rir soltando berros. - Não compreendo, senhor - retorquiu o monge, corandoligeiramente -, o que possa haver de divertido nisso. . . - Quinze anos! - disse-lhe o homem entre dois acessosde hilaridade, quinze anos! E por que motivo, és capaz de medizer? Por um pedaço de papel! Quinze anos... Ah! Pegando com ambas as mãos na folha iluminada preparou-separa a rasgar. Então Frei Francis deixou-se cair de joelhosa meio do atalho. - Maria Santíssima! - exclamou. - Suplico-o, senhor, poramor de Deus! O ladrão pareceu um pouco lisonjeado; atirando o pergaminhoao chão, perguntou em tom sarcástico: - Estarias pronto a bater-te para defender o teu pedaço depapel. - Se o deseja, senhor! Farei tudo o que quiser! Ambos se puseram em guarda. O monge benzeu-se precipitadamenteinvocando o Céu, recordando-se que a luta foraoutrora um desporto autorizado pela divindade - depois lançou-seao combate. . . três segundos depois jazia sobre as pedras pontiagudas quelhe martirizavam a espinha, meio sufocado por uma pequenamontanha de músculos rijos. - E pronto! - disse modestamente o ladrão, que se ergueue pegou no pergaminho. Mas o monge arrastava-se de joelhos, com as mãos postas,ensurdecendo-o com súplicas desesperadas. - Credo! - escarneceu o ladrão. - Eras capaz de me beijaras botas, se eu to pedisse, para que te devolvesse a estampa! Como única resposta, Frei Francis agarrou-o de um salto ecomeçou a beijar com fervor as botas do vencedor. Era demais, mesmo para um refinado patife. Com uma praga,o gatuno atirou o manuscrito ao chão, saltou para cima do burroe desapareceu... Francis imediatamente caiu sobre o manuscrito eagarrou-o. Depois começou a saltitar atrás do homem pedindo emsua intenção todas as bênçãos do Céu e agradecendo ao Senhorter criado malandrins tão desinteressados. . . No entanto, assim que o ladrão e o burro desapareceramatrás das árvores, o monge perguntou a si próprio, com certatristeza, por que motivo, de facto, consagrara quinze anos dasua vida àquele bocado de pergaminho. . . As palavras do gatunoainda lhe soavam aos ouvidos: "E por que motivo, és capaz deme dizer?... Sim, porquê, de facto, por que razão?" Frei Francis retomou o caminho, a pé, muito meditativo,a cabeça inclinada debaixo do capuz. . . Em certo momento veio-lhemesmo a ideia de atirar o documento para o meio do matoe ali o deixar, à chuva. . . Mas o Padre Abade aprovara a sua decisãode o entregar às autoridades do Novo Vaticano, à maneirade presente. O monge reflectiu que não podia lá chegar de mãosvazias, e continuou, tranquilamente, o seu caminho.
 * Chegara o momento. Perdido na imensa e majestosa basílica,Frei Francis abismava-se com a prestigiosa magia das cores e dossons. Depois de invocarem o Espírito infalível, símbolo de todaa perfeição, ergueu-se um bispo - era Monsenhor Di Simone,reconheceu o monge, o advogado do santo - e adjurouS. Pedro a pronunciar-se, por intermédio de S.S. Leão XXII,ordenando ao mesmo tempo a toda a assistência que prestasseatenção às palavras solenes que iam ser pronunciadas. Nessa altura, o Papa ergueu-se calmamente e proclamou queIsaac Edward Leibowitz seria de futuro um santo. Estava consumado.Dali em diante o obscuro técnico de outrora fazia parteda falange celestial. Frei Francis imediatamente dirigiu umaprece ao seu novo amo, enquanto o coro entoava o Te Deum. Caminhando num passo vivo, o Sumo Pontífice, um momentodepois, surgiu tão bruscamente na sala de audiência onde o fradinhoaguardava que a surpresa cortou o fôlego a Frei Francis,privando-o um instante da palavra. Ajoelhou-se à pressa parabeijar o anel do Pescador e receber a bênção, depois ergueu-sedesajeitadamente, atrapalhado com o belo pergaminho iluminadoque mantinha atrás das costas. Compreendendo o motivo da suaperturbação, o Papa teve um sorriso. - O nosso filho trouxe-nos um presente? - perguntou. O monge rouquejou, meneou estupidamente a cabeça eestendeu finalmente o manuscrito, que o vigário de Cristo fixoumuito demoradamente sem nada dizer, com o rosto perfeitamenteimpassível. - Não tem importância - balbuciou Frei Francis, que sentiaa sua perturbação aumentar à medida que o silêncio do Pontíficese prolongava -, é apenas uma pobre coisa, um miserávelpresente... Chego a ter vergonha de ter passado tanto tempo a... Calou-se de súbito, sufocado pela emoção. Mas o Papa parecia não o ter ouvido. - Compreende o significado do simbolismo empregado porSanto Isaac? - perguntou ele ao monge, enquanto examinavacuriosamente o traçado do plano. Como resposta, Frei Francis apenas pôde abanar negativamentea cabeça. - Seja qual for o significado... - começou o Papa, masinterrompeu-se de súbito e começou bruscamente a falar deoutra coisa. Se tinham dado ao monge a honra de assim o receber,explicou-lhe, não era porque as autoridades eclesiásticas,oficialmente, tivessem qualquer opinião a respeito do peregrinoque um monge tinha visto. . . Frei Francis fora tratadodaquela maneira porque o queriam recompensar por ter descobertoimportantes documentos e santas relíquias. Assim tinhamsido classificadas as suas descobertas, sem que aliás entrassemem linha de conta as circunstâncias que as rodearam. . . E o monge começou a balbuciar agradecimentos, enquantoo Sumo Pontífice novamente se perdia na contemplação dosesquemas tão belamente iluminados. - Seja qual for o significado - disse ele por fim -, estefragmento de saber, de momento morto, recuperará vida qualquerdia. Sorridente, teve um piscar de olhos em direcção ao monge. - E conservá-lo-emos sob vigilância até esse dia - concluiu. Só então Frei Francis reparou que a sotaina branca do Papatinha um buraco e que todas as suas vestimentas estavambastante velhas. O tapete da sala de audiência também se apresentavamuito usado aqui e além e o estuque do tecto caía aosbocados. Mas havia livros sobre as prateleiras que cobriam as paredes,livros enriquecidos por admiráveis iluminuras, livros quetratavam de coisas incompreensíveis, livros pacientementerecopiados por homens cuja tarefa não consistia em compreender,mas em salvaguardar. E aqueles livros aguardavam quechegasse a sua hora. - Adeus, filho bem-amado. O humilde guardião da chama do saber partiu novamentea pé em direcção da sua longínqua abadia... Quando se aproximouda região frequentada pelo gatuno sentiu-se estremecerde alegria. Se por acaso o ladrão estivesse de folga, naqueledia, o fradinho sentia-se disposto a sentar-se e aguardar o seuregresso. Pois sabia, desta vez, que resposta dar à sua pergunta.

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