O (verdadeiro) homem invisível

Não tenho nome. E mesmo que tivesse, seria esquecido durante estes anos. Não tenho nada, apenas a roupa de meu corpo. Tantas pessoas querendo ter poderes especiais e eu ganhei um deles de graça: sou invisível. Elas passam por mim e não me vêem, ou fingem que não vêem. Sou o que chamam de andarilho e passo frio e fome às vezes, mas ninguém se importa. Meu conhecimento é limitado. Sei apenas que estamos no ano de 2101 devido aos jornais velhos espalhados pelas ruas. A elite vive lá em cima, em seus prédios luxuosos em forma de disco e com uma tecnologia infinitamente avançada comparada com a que temos aqui embaixo. Mas de que adianta? Apenas a tecnologia avança e evolui, enquanto as atitudes e consciência geral permanecem as mesmas. A tecnologia evoluiu, mas a humanidade não. Os mesmos problemas continuam.


E agora estou aqui, escrevendo em folhas velhas, com um pedaço de carvão encontrado em uma fábrica abandonada. Por que resolvi escrever estas coisas se para mim o mundo parou e apenas o sol continua seu caminho? Talvez por ter visto algo incomum esses dias aqui na terra de ninguém. Gotas de chuva começam a cair e me lembram o que é sentir, que ainda estou vivo apesar de viver no eterno esquecimento. Resolvo correr para um abrigo, para continuar a escrever antes de esqueça o que vi. Devo sofrer de amnésia, pois esqueço das coisas facilmente. Foi uma ótima idéia registrar o evento.

Uma limusine preta, daquelas que sai de fábrica com dois foguetes em cada lado, pairou sobre a esquina. Seu reator traseiro soltou faíscas ao entrar em contato com os elementos presentes no solo. Vi uma figura imponente, desconhecida, conversar com outro homem que parecia procurar algo. O que eles faziam aqui embaixo? A elite nunca descia. Tudo o que precisavam estava nas alturas, incluindo suprimentos, escritórios, áreas de lazer, áreas reservadas para tratamentos de saúde e etc.

Eles perceberam que eu os observava. Engraçado pensar que, quando o pensamento é direcionado para algo ruim, minha invisibilidade deixa de funcionar. O homem subiu novamente em seu carro voador e desapareceu no grandioso céu azul. O outro, carregando um maço de documentos, iniciou uma corrida em minha direção. Parecia me conhecer. Será que um dia fui da elite e por algum acidente vim parar aqui (o que explicaria minha amnésia)? Eles estariam atrás de mim e me levariam de volta?

Não. Isso aqui é realidade, não um conto de fadas. E mesmo que isso realmente acontecesse, eu preferia não saber como vim parar aqui, os traumas que passei ou quem eu havia deixado para trás. Sai em disparada até uma fábrica abandonada. Aqui era meu reino, meu habitat. Conhecia cada canto e o melhor lugar para me esconder. O homem parou na entrada, observou o ambiente e preferiu não entrar. Para quem era lá de cima, estava muito desacostumado com estradas antigas e chão de concreto. Esbravejou, murmurou algumas palavras e saiu apressado. Notei que ele deixou algumas folhas cair. Saí de meu esconderijo e apanhei as folhas. Seu conteúdo me levou a escrever estas memórias.

Seu título, escrito em letras grandes, dizia “Projeto Fotossíntese”. Eu estava errado. Não havíamos sido esquecidos. Nossa existência em si atormentava os habitantes dos céus. O sentimento de culpa era geral. Mas o que era mais fácil fazer? Acabar com a causa ou encontrar uma solução? Os poderosos resolveram seguir o caminho mais fácil e menos doloroso – acabar com a causa. O projeto tinha como objetivo a metamorfose de nosso habitat, uma limpeza geral, com a visão de refletir o que eles pensavam ser a solução definitiva – a dizimação do povo da superfície.

Mas eles acreditariam em alguém como eu? Obviamente não. Mas as palavras escritas são poderosas, pois não são influenciadas por aparência, condição ou atitude. E ainda nem compreendo direito como consigo escrever desta forma, sendo apenas mais um ninguém. Deve ter alguma explicação, um motivo. Só lamento ter descoberto a verdade muito tarde...

Ao terminar de escrever, minha mente sofreu um colapso doloroso e acabei descobrindo que minha missão original era avisar os habitantes da superfície sobre o desastre que se aproximava. Mas um tiro certeiro de uma arma atordoante me tirou de circulação por anos e o clima de perigo que cercava os poderosos, cessou.

Mas tudo iria mudar a partir de hoje. Iríamos procurar a solução e não consumir com a causa. A partir deste dia não seríamos mais invisíveis. Mas como eu mencionei antes, a realidade não é um conto de fadas. A limusine preta me encontrou. Depois de um som ensurdecedor afetar meus sentidos, um silêncio aconchegante foi sentido por meus ouvidos. A última coisa que vi foram as folhas sendo espalhadas com o vento por entre as esquinas da cidade esquecida.

Alguém as encontraria e espalharia a mensagem. Afinal, os escritos não eram invisíveis...

(...)

Em 2102 as manifestações não puderam mais ser contidas e os habitantes da superfície conquistaram a oportunidade de formar um grupo escolhido para representá-los no Conselho de Elite. Suas vozes foram ouvidas e o Projeto Fotossíntese foi abandonado. Até porque, quando os habitantes das alturas descobriram que o povo da superfície somava mais de seis bilhões de pessoas - contra apenas um milhão - sabiam que a situação poderia virar a qualquer momento.

Mas tudo começou com uma manifestação silenciosa, através das palavras escritas que atravessaram o mundo de forma fluída, como que levadas pelo vento...

Brian O. Lancaster

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